Friday, August 24, 2007

Memórias, sonhos e reflexões


Ela conhecia bem aquele sentimento.
Um silêncio interno. Uma solidão.
Passara o dia ouvindo sobre sonhos, pesadelos e dores.
O pensamento não necessariamente estava ali.
O sol caminhou pelo céu e encontrou uma fresta na cortina da sala para lhe aquecer o rosto.
Os olhos ardiam de sono. O corpo, cansado.
A discussão do grupo soava com eco em sua cabeça, que começava a doer.
Palavra ou outra se destacava do que estava sendo dito e a puxavam de volta para a sala.
Café. Precisava de café. E água.
Naquele dia seco e morno de inverno seus lábios estavam extremamente secos. Ardiam. Como seus olhos.
Pegou uma garrafa de água e tomou com tanta sede que chegou a escorrer pelo canto direito de sua boca. Ninguém notou, apesar de estar rodeada por várias pessoas. Pediu um capuccino. Cremoso. Sem açúcar.
Sentada, lembrou de um sonho que tivera anos atrás.
Chegava a ser impressionante sua capacidade de lembrar seus sonhos. Mesmo os mais antigos.
Esse sonho, em especial, era bastante interessante.

Estava em um supermercado andando entre os corredores sem saber o deveria pegar.
Andava. Seus olhos corriam as prateleiras e os itens que elas continham. Em vão.

Fim da cena. Continuava a dormir sem mais sonhar.
Na noite seguinte, o mesmo sonho.

De volta ao mesmo supermercado. Andava pelos corredores... prateleiras... itens... nada... o que pegar? De repente, um pensamento: sua mãe saberia lhe dizer o que pegar.

Fim de cena. Sem esse ou outro sonho, o sono seguia até acordar pela manhã.

Na próxima noite, lá estava ela novamente no supermercado. Andando pelos corredores, mas dessa vez havia algo diferente. Sentiu a presença de sua mãe. Andou entre os corredores em direção à saída do supermercado. No caixa, segurando uma cesta estava sua mãe, e dentro da cesta três filhotes de cachorro.

Fim do sonho.

Ainda pensando no sonho caminhou pelas ruas do bairro em direção à sua casa.
O silêncio e a solidão cresciam dentro si.
Era um fim de tarde lindo, como são os fins de tarde de inverno. Anunciava uma noite agradável de céu limpo e lua crescente.
As pessoas da cidade já começavam a se agitar em direção aos bares com suas famílias e amigos para celebrar a semana que se acabava em tão maravilhosa noite de inverno.
Ela passava pelas pessoas sentindo-se cada vez mais só. Invisível até.
Interessante como a solidão já fazia parte dela. Sentia-se triste por isso. Tudo o que não queria era voltar para a casa vazia com dois filmes para assistir e duas garrafas de água para matar sua sede.
Naquela noite em particular gostaria de uma companhia.
Já sentia a dor de cabeça mais forte e seu corpo febril.
E o silêncio.
E a solidão.

3 comments:

Susana said...

Dra. Tormenta, Encontrei o seu blog porque dediquei-me a interpretar os meus sonhos cada vez mais... os acontecimentos orientam-me nesse sentido... Nas últimas noites sonhei com hipermercados eu entrava e começavam a encerrar... Não sei se o "objectivo" do Blog é Sonhar... Mas agrada-me ver o Dr. Jung, já li algumas coisas que me ajudaram no meu Mundo dos Sonhos... Mas tenho um grande caminho para trilhar:)! Bons Posts!

Gata Mia said...

:) Depois de ver o teu Blog... Decidi criar o meu! Nota-se! E "roubei" a ideia da frase do Jung, porque achei a melhor forma de iniciar o que acho que pretendo... Não há acasos! Obrigada. Gata Mia!

Ilan said...

Muito bem escrito, Paulinha. Adorei o texto. Bjs.